É engraçado esse mundo.
Era um treino leve, 8k solto. Estava um pouco frio, e eu com meu casaquinho preferido para treinos. Eu vinha pensando em como foi uma compra boa, anos atrás, em Uruguaiana. Um moletonzinho bem leve, colado no corpo, sem capuz. Do tipo que protege no começo do treino, não esquenta demais quando o corpo aquece, e não atrapalha se tiver que amarrar na cintura. Hering, comprado num saldão, baratinho. Surrado e desbotado, e mesmo assim meu preferido.
Ia eu pensando no casaco quando viro uma esquina do parque Villa Lobos e vejo um cão vagando por lá. Não pode cachorro andar solto no parque. Era segunda-feira muito cedo, certamente alguém largou o bicho lá e os guardas ainda não tinham visto. O cachorro tava todo judiado, sem pelos atrás, sujo, sarnento. Passei por ele e comecei a refletir. Eu gosto muito de bichos, e não suporto o sofrimento animal. Vivo ajudando financeiramente ONGs e protetoras de animais. Eu sabia que um dia ia chegar a minha vez de me envolver mais. Continuei minha corrida pensando: "mais uma vez vou passar por um bicho sofrido e não vou fazer nada, como sempre?". Decidi que não, que aquele era o dia em que não ia simplesmente deixar passar, esperando que a vida resolva. Voltei no lugar em que tinha visto o cão, parei de correr, tirei meu casaquinho querido, enrolei no bicho e levei, no colo, até a sede do parque.
Daí começou uma saga que me transformou em outra pessoa. Uma pessoa com um propósito: ajudar o bicho. Eu fui possuída pelo objetivo. Eu só via isso na minha frente. Eu passei um dia inteiro sem comer, sem fome, sem frio e sem nojinho de carregar um bicho sarnento no colo e nos bancos de couro do meu carro de madame. E entendi que não tem nada que provoque mais repulsa do que um cão sarnento. Não consegui uma pet shop que aceitasse dar banho e não achei nenhum hotelzinho que a acolhesse.
Ainda bem que tenho amigas com o coração maior do que a barriga.
Medicada, alimentada e banhada (por mim), a Lola foi hospedada provisoriamente na casa da família Daleiro-Ayala. Hoje foi para um abrigo, mas deve voltar pra Ana - que conseguiu negociar com o marido e a proprietária. E depois, se tudo der certo, a Lola vai ser adotada pela minha tia ou por outra pessoa tão boa quanto os meus amigos/família.
Perdi 2km do treino daquele dia e meu casaquinho se perdeu na sede da administração do parque, onde a Lola passou a primeira noite do resgate.
Eu corro pra me tornar uma pessoa melhor. Se não fosse pra isso, não faria sentido algum.
(Ajudar a Lola foi muito bom pra ela, mas não faz muita diferença no enorme problema de abandono de animais. Tá cheio de bichos precisando de ajuda no mundo. Em São Paulo, especialmente, isso é uma grace questão. Se você puder, colabore com ONGs como Adote um gatinho, UIPA, Cão sem dono, Clube dos vira-latas, ou protetoras independentes. Aqui e aqui tem listas de entidades que precisam muito de ajuda.)
E deixo meu agradecimento a Priscila (que indicou) e a Graciana - protetora que me pôs em contato com o abrigo. Muito obrigada também a todos os amigos que me ajudaram com dicas, indicações, e-mails de encorajamento.
2 comments:
Alessandra,
esse questionamento de: "quando vou me envolver mais?" é a principal característica de quem já está bem envolvida.
Parabéns pela coragem de correr por um mundo melhor.
beijo grande
Pri
Parabéns! É de pessoas assim que o mundo precisa.
Corre no Villa Lobos sempre? Qualquer dia desses a gente se encontra por lá então!
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