Mas lá fui eu para a Macarronada Italiana, encontrar a equipe pela primeira vez. Nunca tinha visto nenhum deles antes... e tive a primeira e feliz surpresa. Eram todos divertidos e desencanados, mais preocupados em ter uma boa experiência do que em correr rápido. My kind of people! Ali soube que tudo daria certo.
O que não sabia ainda era que ia gostar taaaaanto da Volta a Ilha. E olha que a indiada era grande. Às 4 horas da madrugada do sábado eu estava pronta para a largada. O primeiro trecho da prova era meu, que honra! Nessa hora, largam apenas uma meia dúzia de gatos pingados. Começamos a correr na Beira Mar Norte escura, na ciclovia esburacada. Como eram poucas pessoas, logo em seguida me vi correndo praticamente sozinha naquela escuridão. Pra completar, chovia. Ma-ra-vi-lha! Quatro da manhã (nunca tinha corrido tão cedo), escuro, frio e chuva. E eu adorando cada minuto... Eu ia dobrar, fazer o primeiro e o segundo trecho, um total de 12k. Mas, no primeiro posto de troca, o capitão da equipe me avisou que um colega iria me render, para me economizar. Como eu estava preparada para correr 12km, já estava me economizando. Então fechei o trecho de 7.11k em 43:45, um pace de 6:09 por km. Pra começar calminho.
Meu próximo trecho seria só no meio da manhã. Enquanto isso, comer, descansar, trocar a roupa molhada - ainda bem que levei três mudas e um chinelinho -, ajudar a equipe nas transições, sentir o clima do pessoal e da prova. É uma logística tão complicada, que é de admirar que dê tudo certo. Um carro vai na frente levando o próximo corredor, uma van vai atrás recolhendo quem termina. Isso para cada uma das 385 equipes participantes. O trânsito em Floripa não é fechado em nenhum momento.
Depois corri 4.7k, só pela areia, entre Ingleses e o Costão do Santinho. De novo, chuva - e, dessa vez, vento contra. Completei em 28:12, ritmo de 6:00 min/km. Melhorei o ritmo em comparação ao trecho anterior, e só não deu pra melhorar mais porque estava correndo na areia. De volta pra van, rumamos em direção ao leste da Ilha. Moçambique, Praia Mole, Lagoa.
É engraçado que eu tenho várias camadas de memórias na Ilha de Santa Catarina. A medida que ia percorrendo o caminho, sentia que estava pisando em lembranças. Às vezes, tocava memórias ainda bem vivas. Na Lagoa da Conceição, eu ia nomeando as casas: Ana, Simone, Kika, Luiz Neguinho, Andréa, Seu Deca... Pessoas que fizeram parte do meu passado. Logo, fazem parte do que eu sou. Pensei no meu avô, na minha família, nos amigos que tenho hoje, nos lugares em que morei e em como tudo isso construiu a pessoa que correu a Volta a Ilha 2010 em Floripa, cidade que também me construiu.
A emoção de reviver memórias se misturava a de completar os trechos, uma sensação de vitória física, e isso me sintonizava com cada um da equipe. Eu nunca havia visto aquelas pessoas antes, e é incrível como a gente se deu bem. Queria conviver diariamente com gente assim: gente que sabe o que tem que fazer, e faz. Gente que presta atenção em si, no contexto, e nos outros. Nunca perdemos uma transição, nunca chegamos atrasados - e ainda tivemos tempo para se conhecer, bater papo, tomar café. Eram divertidos e desencanados, mas a descontração não significava moleza. Todos guerreiros, dando o seu melhor. E nem tanto para os outros, mas para si mesmo. Dar o melhor de si porque é isso que faz sentido para a sua vida, e não porque os outros esperam, é a melhor maneira de contribuir. Eu não estava ali apenas correndo. Estava ali aprendendo a colaborar com um grupo, a confiar em estranhos e a abdicar do controle - coisas muito difíceis para mim no dia a dia.
A noite ia caindo, já estávamos no Sul da Ilha, e eu esperava meu último trecho, do Ribeirão da Ilha até o Aeroporto. Peguei a pulseira do capitão da equipe, que fez o Morro Maldito, o trecho mais difícil. Tive a oportunidade de correr dentro da base aérea, um lugar em que normalmente não poderia nem entrar. Casas legais, na beira do mar, e a cada dez metros, um soldadinho sinalizando o caminho. Terminei os 7.97km em 45:42. Pace de 5:44 min/km, meu melhor ritmo na prova. Quando acabei, em um estado alterado de consciência movido a emoção, cansaço e endorfinas, comecei a rir e quase chorar, tudo ao mesmo tempo. A fofa companheira de equipe perguntou o que estava acontecendo... e eu respondi que estava pensando em como ando fazendo coisas legais na vida. E sou muito, mas muuuito agradecida por isso.
Cada um tem a sua Volta a Ilha. São trechos difrerentes, visuais diferentes, experiências diferentes. Essa foi a minha. Atravessamos a linha de chegada todos juntos e muito felizes. Corri 19.77 km em 1:57:39. Nossa equipe percorreu 150 km, em mais ou menos 14 horas. Dei a volta completa por fora da Ilha e fiz um passeio por dentro de mim. Não, eu não era uma pessoa diferente da que era no dia em que fiz a inscrição. Eu era e sou também essa pessoa - que aprende com o grupo, colabora, compartilha um objetivo e se alegra com a conquista coletiva. E, ainda assim, continua sendo para dentro de mim que eu corro.